2007 • ANO 2 • Nº 08
Missão Brasileira
O ITALIANO ROBERTO RABACHINO, ELEITO O MELHOR SOMMELIER DO MUNDO, ELOGIA A PRODUÇÃO GAÚCHA E SONHA EM AJUDAR NA FORMAÇÃO DA CULTURA ENÓFILA NO PAÍS

Texto: flávia pinho
Fotos: MARISA CAUDURO / VALOR / AG O GLOBO

 

Eleito duas vezes o melhor sommelier do mundo pela International Wine Federation, o jornalista e professor italiano Roberto Rabachino gosta mesmo é de viajar divulgando a cultura do vinho. Ele assina uma conceituada revista, a Il Sommelier, um programa na TV italiana e 11 livros – entre eles o Vocabolario del Vino, que acaba de ser lançado no Brasil pela Editora da Universidade de Caxias do Sul, em parceria com a Escola de Gastronomia UCS-ICIF. Assim como já fez na Califórnia, ele sonha em ajudar o brasileiro a ter uma cultura enófila. Em junho, quando visitou o Brasil, Rabachino conversou com a AD Caves Magazine:



Qual carreira veio primeiro, a de jornalista, de professor ou de sommelier?

Minha formação acadêmica é em Sociologia e Ciência da Comunicação. Já era especializado em jornalismo enogastronômico
quando decidi, em 1982, obter um diploma de sommelier profissional. Queria me situar melhor no ambiente. Bem mais tarde, em 1993, fiz doutorado em Ciências Alimentares e Análise Organoléptica. Como professor universitário, passei por várias instituições, entre elas a Universidade de Ciências Enogastronômicas de Lugano, na Suíça. Trabalhei também nos Estados Unidos, na China, na Índia, na Coréia, no Brasil e em outros países da América do Sul.

Quando e como foi apresentado ao mundo dos vinhos? É tradição de família?

Nasci no Piemonte, no norte da Itália, uma das mais importantes regiões vinícolas do mundo. Tenho muitos parentes produtores de vinho. Como todos os adolescentes de lá, experimentei vinho pela primeira vez aos 16 anos, por pura curiosidade. Mas considero
que meu ingresso oficial no mundo da enologia foi em 1992, quando ganhei o Campeonato Mundial de Sommeliers pela International Wine Federation. Em 1996, ganhei o mesmo campeonato novamente.

Como descobriu que tinha um talento especial? E que esse talento poderia se tornar uma profissão?

Foi durante uma degustação às cegas, quase uma brincadeira entre amigos, quando tinha 20 anos. Estávamos em Bordeaux, na França. De um total de dez vinhos, consegui reconhecer oito. Percebi, então, que tinha as qualidades para prosseguir na carreira: paixão, espírito de sacrifício, humildade e desejo diário de aprender. Mas acredito que qualquer pessoa possa enfrentar uma degustação técnica, desde que afine o conhecimento do próprio corpo e domine a teoria.

Quais são seus vinhos favoritos? E os que não aprecia?

O Barolo, produzido na região do Piemonte, o Cabernet Sauvignon, pela sua força, e o Merlot, pela sua estrutura. Infelizmente, não posso citar rótulos por questões contratuais. Não detesto nenhum, tenho o máximo respeito pelo trabalho do produtor. Todo vinho tem
algo de positivo para comunicar.

Alguma descoberta recente?

A surpresa mais agradável dos últimos tempos foi uma degustação de Malvasias Passitas, dos países banhados pelo Mediterrâneo, como Grécia, Itália, França, Espanha, Marrocos e Tunísia. Eram safras de 1898, 1899, 1900 e 1901. Fiquei fascinado pelo fato de que,
embora velhos, com mais de cem anos, os vinhos continuavam íntegros e agradáveis. É maravilhoso constatar como esse tipo de produto vive a história e as tradições de uma terra.

Que regiões produtoras merecem destaque atualmente?

Elejo duas regiões italianas, o Piemonte e a Toscana, porque identificam a história e a produção de alta qualidade. A zona do Bordeaux, na França, deve ser citada por sua elegância. E também algumas áreas do Brasil, como o Vale dos Vinhedos e os Altos Montes, no Rio Grande do Sul, pelo importante avanço na produção de vinhos de qualidade. Esta é a quarta vez que venho ao Brasil e já tive oportunidade de degustar muitos vinhos bons. Lembro especialmente do moscatel da Vinícola Panizzon e do merlot da Miolo.

Como classifica a cultura do vinho no Brasil?

Os brasileiros estão descobrindo o mundo e a cultura da bebida. Há cada vez mais pessoas interessadas na arte de beber. E o tratamento dispensado ao vinho é cada vez mais profissional. O uso de adegas climatizadas, por exemplo, vem se difundindo a grande
velocidade. Trata-se de um fenômeno mundial, que não é exclusivo de países quentes. Elas proporcionam a temperatura adequada de serviço em qualquer condição climática.

O senhor vem conquistando vários prêmios, não só como sommelier, mas também como divulgador da cultura enófila. Como é esse trabalho?

Fui premiado este ano, em Roma, como o melhor jornalista da categoria. E, na última edição da feira Vinitaly, em Verona, recebi o prêmio Arte Spumantisctica 2007, como melhor comunicador do ano. Mas um dos mais significativos foi conferido pela Western States University: o título de Doutor Honoris Causa em Ciências da Comunicação, pela minha contribuição à formação da cultura enófila
na Califórnia. Promovi os vinhos californianos em todo o mundo, quando ninguém os conhecia.

Planeja algo semelhante no Brasil?

Sim, sem dúvida. Pretendo estreitar os laços com o país e fazer o mesmo com os vinhos brasileiros.
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