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De 1640 a 1756, comerciantes portugueses e ingleses, sem regras ou controle de qualidade, expediam os vinhos do Douro para nós em grandes quantidades. Quando chegavam, as pipas eram fracionadas para bares e restaurantes. As famílias ricas ficavam com uma ou mais pipas. Os demais, levavam jarras de barro ao bar e compravam a quantidade que queriam. Antes do embarque, o vinho recebia a adição de aguardente para agüentar a viagem. Como sempre, a ganância fez com que a qualidade caísse. Isto somado a um desinteresse momentâneo dos ingleses fez o Douro enfrentar violenta crise. Tal fato virou problema de Estado. O rei de Portugal era Dom José I, mas quem governava era Sebastião José de Carvalho e Mello, futuro Marquês de Pombal. Não era segredo que Pombal, casado com uma rica viúva inglesa, não gostava dos ingleses, apesar de suportar uma delas em casa. A situação foi um prato cheio para motivá-lo a enquadrar seus desafetos. Aí começa a segunda fase.
Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro, estatal que iria cuidar do vinho do Porto desde o nascedouro. Com um decreto lei de 53 artigos, ele não só determinou a marcação geográfica da região, dando origem à primeira Região Demarcada Vinícola do mundo, como estabeleceu regras para preservar e aumentar seu comércio. Criou escolas de navegação para facilitar o transporte, e uma escola de contabilidade para o controle fiscal, que deu origem a atual Universidade do Porto. Para o Brasil, reservou 19 artigos. E a nós, na qualidade de colônia, restou comprar muito vinho. Um dos artigos dizia expressamente que “todos os vinhos que os ingleses não comprassem, compraria o Brasil”. Este ciclo perdurou de 1754 até 1880. A partir daí, com a chegada da Família Real Portuguesa, o consumo disparou. O Vinho do Porto assume o status de objeto de desejo graças, também, ao espírito empreendedor de um jovem de 23 anos, Adriano Ramos Pinto. Ele constituiu uma companhia voltada para o comércio exclusivo com o país com três diferenciais que, hoje, dariam motivo para interná-lo em um hospício. Vendia somente vinhos engarrafados numa época em que 90% do vinho exportado para o Brasil vinham em barricas de 550 litros; sua garrafa tinha 630ml, enquanto a dos concorrentes trazia 750ml, e, mesmo oferecendo menos vinho, seus preços eram bem mais caros. Mas este jovem tinha uma arma que nem os sabichões da época conheciam, o tal do marketing. Adriano Ramos Pinto investiu tudo nisso, e foi insuperável. Criou um tipo de comunicação via cartazes de fazer inveja; ousou nos temas, abraçou a mitologia grega que exaltava o nu. Embora solteirão convicto, ele sabia que quem mandava em casa era a mulher, e à “chefe do lar” dirigiu o maior esforço de sua propaganda. Naquela altura, o Vinho do Porto era um “santo remédio” no Brasil. Combatia de tudo, creio eu que menos caspa e unha encravada, porque, de resto, um cálice de Porto, com uma gema de ovo de pata e um pouco de açúcar era tiro e queda. As mães o davam a seus filhos pela manhã, o marido tomava antes de ir trabalhar. E todos os médicos abonavam o “remédio”.
O terceiro período ocorreu quando o governo do Brasil entrou em ação. A importação dos vinhos foi taxada em mais de 200%. Tal decisão foi tomada no primeiro governo de Getúlio Vargas que, bom gaúcho, atendeu aos reclamos dos produtores conterrâneos contra os vinhos importados. O Porto deu uma sumida. Na quarta e última etapa, que se inicia na década de 1970 e prossegue até hoje, o quadro é o seguinte. No Brasil surgem confrarias, clubes de degustação etc. O governo de Portugal resolve investir pesado na divulgação de seus vinhos. A Casa Ramos Pinto troca de mãos, vendida ao grupo francês Louis Roderer. A nova orientação é a de não popularizar a marca Ramos Pinto, embora até hoje, para muitos brasileiros, ela seja sinônimo de Vinho do Porto. A Real Companhia Velha, com o vinho Dom José, assume o lugar do Adriano. E as casas e quintas do Douro iniciam um trabalho de reconquista do consumidor brasileiro. Deixando a História de lado, o Porto é o único no mundo dos vinhos que tem história e classe para dar e vender, aquece os corações e distingue quem dele faz uso. Por isso, como disse um poeta “O Vinho do Porto é o professor do gosto e o libertador do espírito”. Saúde!
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