2008 • ANO 3 • Nº 09
Vinho Com Alma Feminina
A jovem enÓloga portuguesa Filipa Pato
estuda o passado e investiga novas tÉcnicas para produzir uma bebida com identidade forte

Texto: Alice Granato
Fotos: DivulgaÇÃo

 

Quando imaginamos discussões em torno do vinho, das suas características, do terroir, das castas, da acidez, do aroma, nos vêm à cabeça nobres senhores entretidos na conversa. É surpreendente, portanto, quando encontramos alguém como Filipa Pato. Aos 33 anos, a moça é uma representante da nova geração de enólogos de Portugal. Sim, ela faz vinhos – e dos bons. Filha de um dos precursores da revolução dos vinhos portugueses, o prestigiado Luis Pato, Filipa não só acompanhou desde pequena o trabalho do pai, como quis seguir seu próprio caminho e não apenas juntar-se a ele. “Meus vinhos têm uma forte identidade”, ressalta. Concebidos na tradição da região da Bairrada e do Dão, os vinhos de Filipa já acompanham a modernidade da enologia e viticultura. “Tento estudar o passado e investigar novas técnicas, como é o caso da crio-extração, um processo de congelamento de uvas”, explica. Com isso, Filipa quer desenvolver os vinhos moleculares, para acompanhar também a tendência da gastronomia molecular. Segundo ela, ser mulher e jovem no velho mundo do vinho a faz sentir como Alice no País das Maravilhas.

Embora tenha nascido em meio ao vinho, Filipa só decidiu que queria ser enóloga depois de viajar muito. Formada em engenharia química, fez estágio em Bordeaux, na Finca Flichman, na Argentina, foi à Austrália conhecer os vinhos do Novo Mundo e, a partir de então, decidiu ter sua própria linha na Bairrada. Lançou a primeira safra em 2001. Embora sua produção ainda seja pequena e ela não tenha vinhedos próprios, ela os aluga de terceiros e faz questão de acompanhar de perto todas as etapas da produção. Diz que este é um dos seus maiores prazeres. Sua marca registrada é usar apenas uvas portuguesas na produção dos seus vinhos, característica que tem em comum com seu pai. “Ele é o mestre da baga e eu quero ser a mestre das beiras. Sempre estive em contato com a baga e partilho essa grande paixão, porém existem muitas outras uvas autóctones para se investigar nas beiras. E esse é o meu desafio.”

COMO ENÓLOGA E CONSUMIDORA DE BONS VINHOS, FILIPA ENFATIZA A NECESSIDADE DOS CONSUMIDORES TEREM UMA ADEGA APROPRIADA

Como tem se desenvolvido no mercado brasileiro, a enóloga vem ao país com freqüência. Em março, esteve no Rio de Janeiro e apresentou vinhos de qualidade em uma harmonização com o chef Felipe Bronze, no restaurante Vizta, no hotel Marina, no Leblon. Para começar, serviu o espumante rosé 3B, feito com as uvas baga e bical. De cor rosa-claro e sabor suave e refrescante, o rosé arrancou logo elogios dos convidados. Em seguida, apresentou o Ensaios FP branco, das uvas arinto e bical. Com aroma muito agradável e toques frutados, o vinho causou comoção entre os comensais e foi o mais elogiado da noite. Por último, Filipa serviu o Ensaio FP tinto, das uvas touriga nacional, jaen e baga, este produzido na Bairrada e no Dão. Simpática e sorridente, a enóloga foi de mesa em mesa comentar sobre os vinhos e ouvir opiniões. Contou que ela e o pai compartilham de um gosto parecido também na degustação. “Apreciamos vinhos elegantes, com boa acidez e longevidade. Uma das recentes descobertas que fizemos foi um chardonnay belga chamado Clos d’Opleeuw 2005. Foi impressionante descobrir como um país com um clima tão frio pode criar um branco tão estruturado e complexo. Confirma que o clima está mesmo mudando”, afirma.

Com essas alterações climáticas, a enóloga acredita que as regiões mais promissoras serão as de clima temperado, pois só assim as uvas com maior acidez poderão suportar o aquecimento global. Em sua visão, as regiões mais quentes devem sofrer muito com a falta d’água. “Acho que as regiões mais promissoras serão a Bairrada, Borgonha, Bordéus, Barolo e Barbaresco. Curioso todas começarem com B…”, observa. Para Filipa, não existe uma hora certa para se abrir um bom vinho: toda hora é boa. “Não há regra. Pode ser desde uma taça de espumante no café da manhã a um vinho Madeira com um charuto ao entardecer.” Aliás, ela é uma apreciadora de vinho Madeira e o sugeriu para acompanhar uma torta de maçã com canela no jantar harmonizado do Rio.

Como enóloga e também consumidora de bons vinhos, Filipa enfatiza a necessidade dos consumidores terem uma adega apropriada para conservá-los na temperatura correta. Embora fique boa parte do seu tempo em viagens ou acompanhando os vinhedos na Bairrada, ela tem uma adega, com capacidade para sessenta garrafas, em sua casa de Lisboa. “A minha garrafeira (adega) é uma caixa de memórias. Cada vinho revela uma história de um momento especial, de um enólogo que me inspirou, de uma viagem a uma região particular”, conta. Entre seus vinhos favoritos estão o champagne Krug Clos du Mesnil, o Quinta do Ribeirinho Pé Franco 2005, Barca Velha 64, Bussaco branco 78, Moscatel de Setúbal Jose Maria da Fonseca 66, Madeira Barbeito Malvasia 1834. “O mundo do vinho, felizmente, é tão grande que se torna impossível citar todos”, diz. Não bastasse o fato de ser jovem e mulher no mundo dos vinhos, a enóloga quer mais. Vai lançar em breve uma linha de “vinhos doidos”. Mas ela ainda não quis contar os detalhes. Sabe-se apenas que serão modernos e terão inspirações em movimentos como a bossa nova. O restante ainda é um segredo, digamos, engarrafado.


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