2007 • ANO 2 • Nº 08
Um Longo Caminho
DEPOIS DE 35 ANOS ESTUDANDO VINHOS,
O JORNALISTA RENATO MACHADO SE
TORNOU UM EXPERT A PONTO DE JÁ
TER DEGUSTADO O ESPECIALÍSSIMO
CHÂTEAU MARGAUX 1900


Texto: ClÁudia Miranda
Fotos: Felipe Varanda
O jornalista Renato Machado é um homem de sorte. O âncora do “Bom Dia Brasil”, da Rede Globo, comanda com o chef Claude Troisgros o “Menu Confiança”, no GNT. Seu desafio no ar é encontrar vinhos que harmonizem com a maravilhosa comida preparada pelo francês. Renato percorre França, Alemanha, Portugal e outros tantos países para conhecer as vinícolas, provar os vinhos e saborear a culinária local. Um trabalho que qualquer apaixonado por vinho pediu a Deus. “E ainda ganho para fazer isso! ” brinca. O jornalista é um profundo estudioso de tudo o que diz respeito ao mundo dos vinhos. Para se tornar um dos maiores experts do Brasil no assunto, ele leu muito, estudou a geografia das principais regiões produtoras em todo mundo e, claro, experimentou muitos vinhos. Milhares. Na sua bela casa, numa rua arborizada e tranqüila do Horto, no Rio de Janeiro, ele mantém duas salas de degustação repletas de prateleiras com garrafas de vinhos. Todas vazias, já devidamente degustadas. São vinhos pra lá de preciosos. Só numa das estantes ele mantém todos os rótulos produzidos pela Romanée Conti – uma das vinícolas mais famosas do mundo. Renato tem uma rotina apertadíssima. Acorda às 5 horas da manhã para fazer o “Bom Dia Brasil”, depois grava o programa do GNT e segue o dia trabalhando. Por isso mesmo, é avesso a badalações noturnas. “Durmo muito cedo. Só aceito convites para sair à noite se for para beber um Château Margaux”, brinca.

No livro "Quase Tudo" Danuza Leão conta que foi ela quem o apresentou ao mundo dos vinhos. Não foi bem assim.

Estávamos na França e ela resolveu sair para fazer compras. Como detesto fazer compras, marcamos de nos encontrar mais tarde numa livraria. Comprei um Atlas e fiquei estudando as regiões vinicultoras. Percebi que os nomes que estão nos rótulos dos vinhos, na verdade, são uma indicação geográfica. Foi aí que a ficha caiu pra mim. Não consigo satisfazer nenhuma curiosidade que não passe por uma linguagem lógica. Antes me relacionava com a bebida através apenas da linguagem dos sabores. Mas isto não era suficiente para eu desejar me tornar um expert no assunto. Bem, desnecessário dizer que a Danuza ficou o dia inteiro fazendo compras. Quando ela voltou, eu já tinha estudado o mapa da França, Portugal, Estados Unidos. Já estava lá na Iugoslávia...

Foto: Arquivo Pessoal
Com o chef Claude Troisgros no programa
"Menu Confiança": privilégio
Então, sua ligação com o vinho é racional?

Sim, precisava deste conhecimento geográfico. Isso não tem nada de romântico. Conhecer vinho exige também muito estudo. Quem tem noção de geografia sabe onde ficam os lugares descritos nos rótulos: Borgonha, Napa Valley, Vale do Loire... Tudo ficou claro para mim a partir do dia em que estudei um Atlas. O sujeito falava Grand Cru da Borgonha e eu pensava, meu Deus, o que é isso? Hoje quando leio Dão Terras Altas, sei que Dão é um rio que corta uma região de Portugal. A partir daí você sabe o tipo de solo daquela área, que uvas nascem ali, como era a produção antigamente, porque produzem mais tintos do que brancos e por aí vai. Tudo depende do DNA, da morfologia e da geografia. Conhecer vinho só pelo sabor ou porque, sei lá, tem cheiro de morango, gosto de não sei o quê, para mim isto é uma grande dispersão.

Você é um autodidata?

Totalmente. Aprendi lendo livros, estudando mapas e viajando na medida em que meus modestos meios me permitiam. Então, não foi assim uma coisa que aconteceu de uma hora para outra. É um conhecimento que se acumula com o tempo. Comecei a estudar em 1972, ou seja, há 35 anos.

Qual foi a primeira região que você visitou?

A primeira foi o Vale do Loire, na França, em 1972. No ano seguinte, estive em Portugal. Em 1976, na Borgonha. Você tem que experimentar muito. No começo tomava vinhos nos bistrôs de Paris, os que podia pagar. Depois, fui morar em Londres e continuei experimentando todos os vinhos europeus que apareciam.

O conhecimento depende também de um paladar bem apurado.

Foto: Arquivo Pessoal
O jornalista, visitando as vinícolas alemãs
O tempo apura o paladar e o conhecimento. É aquela velha história dosnomes. Primeiro você precisa saber de onde vem o vinho que está tomando, se da África do Sul, do Chile, da Califórnia. Aí, depois de passar dez anos provando estes vinhos, você poderá participar de uma degustação cega com rótulos de todas essas regiões e conseguir distinguir de onde vem cada um. Impossível saber qual é qual se antes você não sabe identificar através dos nomes determinadas características da região onde foi produzido. É necessário decorar nomes, sim. Eu vi um filme em que a atriz Jeanne Moreau falava de Chambertin. Aquele nome nunca mais saiu da minha cabeça. Quando pude, fui conhecer os vinhedos desta região francesa. Hoje viajo para lá ano sim, ano não.

Você vai a trabalho ou a passeio?

Vou para descansar. Vou para lugares onde haja vinhedos para ficar quieto.

Qual a sua região predileta?

É a Borgonha. Lá estão os melhores vinhos.

O seu interesse por vinhos também proporcionou muitos outros conhecimentos. O que mais o fascina na sua relação com a bebida?

Os vinhos do Velho Mundo têm uma forte relação com a Idade Média. Então, a cidade medieval me encanta, sou um sujeito que gosta de pedras, castelos desabados, mosteiros em ruínas, velhas abadias. Este conceito de cidade que temos hoje, do comércio, do estabelecimento de uma comunidade dentro de muros. Tudo isso vem da Idade Média. Na Idade Média, o vinho era uma mercadoria como outra qualquer... O cara vendia frangos, ovos e vinhos. Aos poucos, sua produção foi sendo aperfeiçoada. Sou fascinado por essa busca da perfeição. Me encanta a história da alimentação porque conta a história da vida em sociedade em
tempos de paz, come-se muito mal na guerra. E quando você quer celebrar a paz você abre uma garrafa de vinho.

Você fala em busca da perfeição. Quais os vinhos que atingiram a perfeição?

Os grandes vinhos da região de Bordeaux, na França, são elegantérrimos.
Agora, os vinhos da Borgonha são inigualáveis.

O Château Margaux é mesmo um dos seus preferidos?

Era o preferido de Hemingway (escritor americano). Meu Bordeaux preferido é o Château Latour. Mas tenho um grande respeito por todos os vinhos de Bordeaux, como o Château Lafite, o Château Haut-Brion. Mesmo os menos cotados, tipo o La Grange, todos são ótimos.

E os vinhos do Novo Mundo?

Estou descobrindo agora a Nova Zelândia. O Chile e a Argentina embarcaram por um caminho que não acho correto: o de produzir vinho para o paladar americano. Acho até que os produtores poderiam ter uma produção só para abastecer o mercado
dos Estados Unidos, mas deviam fazer também rótulos com uma qualidade diferenciada. O vinho produzido para o mercado americano é mais doce, tem maior teor alcoólico, as uvas são colhidas mais tardiamente. O vinho do Novo Mundo mudou muito o conhecimento de como o vinho era produzido antigamente. Antes o vinho era considerado uma expressão da natureza.
Agora é uma expressão da indústria.

Você prefere, então, os vinhos europeus?

Sim. Mas quando falo em vinho europeu, estou excluindo a Espanha e a Itália que estão fazendo coisas muito ruins. Na verdade, lá na Europa também existem vinhos mascarados, que traem as tradições. Muitos produtores europeus estão se rendendo ao modo de produção americano. Os únicos países livres disso são a Áustria e a Alemanha. Essa escola para mim é um grande equívoco. Os produtores da Califórnia demonstraram que são um sucesso, mas para o mercado americano. Mesmo assim, estão sofrendo com a concorrência dos vinhos baratos da Austrália e do Chile, países que fizeram a opção de produzir vinhos de 7 dólares para o mercado americano.

Mas o Chile não produz só vinhos baratos.

Acontece que as vinícolas chilenas só produzem pensando no mercado americano. Ou seja, nivelam a qualidade pelo gosto americano, mesmo os vinhos mais caros.

E os vinhos brasileiros?

Acho que os espumantes têm boa qualidade. Mas confesso que preciso estudar mais os vinhos brasileiros. As pessoas têm me apresentado a vinhos bem honestos. Mas não são vinhos de guarda e ainda não podem competir em preço com o bom vinho europeu. Mas podem competir com um prosecco, por exemplo.

E como anda o mercado de vinhos no Brasil?

Acho que o mercado brasileiro é muito caro por causa dos impostos para a importação. Paga-se muito aqui por um vinho estrangeiro. Mas somos uma boa esquina, você pode encontrar no mercado bons rótulos de vários países. Até mesmo da Nova Zelândia, que produz vinhos de ótima qualidade.

Você prefere branco ou tinto?

Branco. Gosto de todos da região da Borgonha. Mas também gosto dos brancos alemães, austríacos, do Vale do Loire, até os da Itália eu gosto.

Qual foi a sua última grande descoberta?

O vinho Gaisböhl 97, do produtor alemão Dr. Bürklin-Wolf. A garrafa tem um R vermelho no rótulo, que não tem nada a ver com o meu nome. (risos) A maneira como esse vinho envelheceu, como se portou no copo, como esse vinho seduziu as pessoas presentes. Inesquecível. E outro: Clos de La Coulée de Serrant 1996, de Nicholas Joly, do Vale do Loire. Estes dois brancos me fascinaram. Também participei de uma degustação de Château Margaux 1961. Fiquei absolutamente encantado.

O melhor Château Margaux é o de 1900. Custa mais de 50 mil reais. Parece que só existem hoje mil exemplares no mundo. Você já experimentou?

Olha, eu não ia mencionar isso, mas já que você tocou no assunto: já tive a felicidade de experimentar. É excelente. Um dos melhores vinhos que já tomei.

Ter uma adega climatizada para guardar os vinhos é fundamental?

Com certeza. Em países quentes como o Brasil, então, é absolutamente necessário. Não existe na história da vinicultura um vinho que tenha resistido muito tempo ao excesso de calor e umidade, típicos de nosso clima. Quem compra vinho de guarda precisa ter uma adega climatizada em casa para preservar o seu investimento. Caso contrário é jogar dinheiro fora.

O programa "Menu Confiança" é um sucesso.

Eu adoro fazer. Recentemente fomos à Bretanha, na França. A região tem ótimos vinhos brancos. É uma forma também de incentivar o brasileiro a tomar vinho branco. Temos tudo a ver com a bebida: um clima quente, uma costa enorme, repleta de bons pescados e frutos do mar que harmonizam maravilhosamente com os brancos.

Você tem mesmo o melhor trabalho do mundo.

Eu tenho um amigo que sempre me fala: Renato, toda a vez que o vejo na TV
morro de inveja. Você está tomando o vinho que eu queria tomar, no lugar que eu gostaria de estar e comendo a comida que eu gostaria de comer. De fato, sou um sujeito de sorte! (risos).
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