2008 • ANO 3 • Nº 09
Trilhas do Vinho

RENATO MACHADO*

Quem não pensa em sair da rotina? Comprar vinhos que contêm uma história, que não repitam o coro da mesmice? Chega de cabernets-sauvignons, de merlots, de chardonnays embarricados. Que tal variar, afastar-se dos sentiers battus como dizem os franceses, os caminhos batidos, ou as trilhas conhecidas (off the beaten track em inglês; e se faço tantas versões não é para mostrar erudição, mas para acentuar o quanto é importante para todo mundo experimentar, não ficar no mesmo lugar).

Se existe um terreno fascinante de experimentação, esse terreno é o vinho. Não por acaso a palavra terroir é tão carregada de sentido. Chega a dar impaciência ler nas revistas americanas a argumentação gasta dos produtores da Califórnia em defesa do vinho tecnológico, de alto teor alcoólico. São produtos industriais.

O vinho não se faz na adega, mas no vinhedo. Quem me disse essa verdade cristalina foram Madame Anne Claude Leflaive, do Domaine Leflaive, Dominique Lafon, o próprio Ângelo Gaja, mas não só eles. Todos os artistas do vinho, da Borgonha ao Piemonte, do Douro ao vale do Mosela a conhecem e repetem há muitas gerações.

Os americanos agora se dão conta de que a fórmula alcoólica pode agradar a eles, mas não convence os conhecedores porque mascara o vinho, tor­na-o uniforme. Fizeram lá agora um sistema de denominações de origem, as AVAs (American Viticultural Area), mas ninguém tomou conhecimento dele. Não encontrei ainda quem acertasse numa degustação de onde provêm os cabernets californianos, se de Napa Valley, Rutherford, Oakville ou Stags Leap.

“Se existe um terreno fascinante de experimentação, esse terreno é o vinho. Não por acaso a palavra terroir é tão carregada de sentido. Chega a dar impaciência ler nas revistas americanas a argumentação gasta dos produtores da Califórnia em defesa do vinho tecnológico, de alto teor alcoólico.”

O mesmo acontece no Chile. Alguém (que não seja o produtor ou vendedor) se aventura a identificar um tinto do vale do Rapel ao lado de um de Curicó?  É tudo igual. Os sauvignons do vale de Casablanca, de tanta madeira, ficaram parecidos uns com os outros.  Os australianos, também influenciados pelos Estados Unidos, capricharam na tecnologia e no cabernet-sauvignon. E estão hoje diante de um problema de marketing. O vinho corrente, da gama de supermercado, ficou de tal forma identificado com o país que os produtores de grandes vinhos se isolaram.

Tudo começou com o tal Yellow Tail, vinho de US$1,99, que ameaçou as vendas de cerveja nas prateleiras americanas. O consumidor rotulou aquela pechincha de Austrália. Como fazer agora para vender como vinho de classe os cabernets do vale de Barossa e Coonawarra?

Ninguém mais insuspeito para falar do cansaço das uvas internacionais do que Daniele Cernilli, editor do guia Gambero Rosso. Para ele, os supertoscanos (cabernet e merlot) estão com os dias contados. Não podem competir globalmente. “É um estilo próximo à Califórnia, dirigido para o mercado americano”, diz ele, “e os consumidores se cansaram.”

A Itália tem 400 uvas nativas para a produção de vinhos. Por coincidência esta semana provei vinhos das uvas roero, sagrantino e vermentino.

O mundo melhorou.

*Jornalista
2008 • ANO 3 • Nº 09
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